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ESTRESSE DIANTE DO CENÁRIO ATUAL DA PANDEMIA DO CORONA-VÍRUS

ESTRESSE pelo Dr. Paulo Galdêncio

A condição essencial para a boa saúde é mantermos nosso estresse em níveis saudáveis. Isso significa que estresse é inevitável? Que é normal? Sim, significa ambas as coisas. O que é então o estresse? È uma reação de adaptação do organismo. Quando atacado por microorganismos, traumatismo, emoções, agentes não específicos etc., o organismo se prepara para enfrentar esse ataque. Essa mudança que o organismo sofre chama-se estresse, uma conquista dos animais que levou alguns séculos para se estabelecer.

Vamos exemplificar com uma causa emocional:

Ao sair da caverna para caçar, de repente o homem se vê frente a frente com um tigre-de-dente-de-sabre.

Bem, um dos dois vai virar jantar.

Sem qualquer participação da parte racional do cérebro, seu corpo inteiro se prepara para enfrentar aquela situação. O corpo tem a chamada reação de luta ou de fuga. Isto é, diante do perigo, ele vai lutar ou fugir. E o corpo se prepara para uma das duas situações.

Para lutar ou fugir, o órgão nobre de seu organismo, naquele instante, são os músculos, que serão necessários para a luta ou para a fuga. Em outras palavras, ele vai precisar de muito sangue nos músculos. Como ele consegue isso? Com a adrenalina. O medo faz com que haja uma descarga desse hormônio. Só que a adrenalina não vai criar sangue. Como ela faz então? Redistribui o sangue. Contraindo as artérias e veias, retira-o de onde ele não é tão necessário naquele momento e leva-o para os músculos, dilatando os vasos sanguíneos. Por isso ficamos “brancos de medo” – pela constrição dos vasos da pele. Por isso temos um “frio no estômago”.

Como o sangue precisa chegar rapidamente aos músculos, temos uma taquicardia. E uma taquipnéia para garantir que o sangue seja bem oxigenado.

A energia é conseguida pela queima da glicose, que é liberada pelo fígado e queimada pela insulina, que é liberada pelo pâncreas.

Os pelos se eriçam para assustar o adversário. As glândulas sudoríparas se contraem para provocar mau cheiro.

Vamos parar agora e transportar para o nosso dia-a-dia diante da pandemia do corona-vírus:

“Como o estresse funciona em tempos de Pandemia

Diante de uma crise estamos preparados para lutar ou fugir. Mas antes desta reação ficamos paralisados. Essa é a função do medo: paralisar para que ele veja o tamanho do obstáculo a ser enfrentado, compara o tamanho de suas forças e decide se deve lutar ou fugir.

Se o medo o paralisa, o que vai mobilizá-lo é a agressividade. E vai mobilizá-lo para uma destas quatro atitudes:

  1. O tamanho do obstáculo a ser enfrentado é “grande”. Comparo com minhas forças e acho que essas são suficientes. E, embora eu sinta medo, enfrento a situação. O nome disso é coragem.
    É importante ressaltar que o corajoso sente medo e, apesar disso, enfrenta a situação, porque acredita que tem forças suficientes para isso.
  2. Na mesma situação, eu fujo. O nome é covardia, porque eu fugi de uma situação que poderia ser enfrentada e eu só não o fiz por medo.
  3. O tamanho do obstáculo é “muito maior que minhas forças” e eu fujo. O nome é prudência.
  4. O tamanho do obstáculo é “muito maior que minhas forças”, mesmo assim, eu enfrento. O nome é irresponsabilidade, inconseqüência. Da mesma forma como considero que o corajoso sente medo, acho que quem não sente medo é irresponsável.

O homem maduro é aquele cujas decisões são corajosas ou prudentes. O imaturo toma decisões covardes ou irresponsáveis.”

Voltando as explicações do Dr. Galdêncio sobre estresse:

Nas situações da vida moderna, raramente há qualquer luta ou fuga. Mas o corpo está preparado para ter essa reação bioquímica diante de qualquer perigo. A reação de luta ou de fuga começa a ser constante, podendo, por isso, vir a se tornar uma causa importante de sofrimento. A reação que em situações ameaçadoras é evidentemente desejável, quando acionada com demasiada freqüência ou por demasiado tempo, faz com que o corpo fique em estado permanente de mobilização.

O resultado é, na melhor das hipóteses, tensão crônica. Os hormônios segregados com tal abundância podem acabar levando a lesões em órgãos vitais, como o coração ou pulmão, ou no próprio sistema nervoso, provocando distúrbios físicos e psicológicos.

É comum ouvirmos alguém falar que está enfrentando uma pressão enorme ou está num estresse muito grande, como se essas duas coisas fossem sinônimas. Não são. Pressão é diferente de estresse.

Pressão se refere a uma situação que pode ser problemática para o indivíduo e que exige alguma espécie de adaptação. Estresse, por sua vez, é um conjunto de reações bioquímicas que permite exatamente essa adaptação. Em outras palavras, pressão está na situação externa e estresse está na resposta do indivíduo. É, portanto, uma reação normal aos desafios que encontramos. O objetivo não é eliminá-lo, mas conviver com ele construtivamente. È importante entender que não se deve considerar a pressão ou o estresse intrinsecamente ruim ou indesejável. Ao contrário, o estresse é um componente natural do funcionamento humano e a pressão é um aspecto normal da convivência em grupo.

O gráfico do estresse

Um técnico de atletismo queria descobrir por que alguns atletas entravam em ansiedade e “queimavam” a saída, enquanto outros, em compensação, ganhavam a prova, mas não batiam o recorde, embora estivessem preparados para fazê-lo, porque entravam em tédio. Chegou ao seguinte gráfico:

 

Analisemos o gráfico:

Faixa 1 – Grande dificuldade com baixa habilidade: distresse

Em grego, dis significa mau. È o nível de estresse em que as pessoas adoecem. Ocorre quando se torna crônica uma situação em que a pessoa está acima de seu nível de competência, em qualquer dos papéis que ela desempenha na vida.

No papel profissional, por exemplo, ocorre quando o indivíduo está trabalhando num posto acima de sua capacidade. É o caso do operário que é tão bom que vira supervisor e, posteriormente, gerente. Como as habilidades necessárias para uma boa gerência são diferentes das requeridas para o operacional, em pouco tempo ele estressa. Ou treina e aprende.

Outro fator estressógeno importante no papel profissional é o prazo. Sentir-se pressionado pelo prazo da entrega causa estresse. O mesmo ocorre quando se fica preso no trânsito e com um horário a cumprir.

O mau ambiente é o mais importante fator estressógeno no papel familiar. O lar, que deveria ser local de descanso dos guerreiros, com muita freqüência é o campo de batalha.

No papel social, o mais freqüente fator estressógeno que tenho visto é a tentativa de viver pela imagem. Gasta-se uma quantidade desnecessariamente grande de energia e de dinheiro exclusivamente para manter uma aparência social.

Faixa 2 – Grande habilidade com baixa dificuldade: tédio

o contrário do que pensa o leigo, uma vida sem medo é uma vida sem sal, monótona, infeliz. O que leva as pessoas a viver nessa zona de ajustamento é o medo – medo do fracasso, da rejeição.

No papel profissional, esse ajustamento aparece em empresas inchadas. Aparece principalmente quando o indivíduo é

sub-utilizado, sub-aproveitado, tem competência profissional e não a coloca em ação, por culpa da instituição ou, mais freqüentemente, por responsabilidade sua.

No papel familiar, aparece quando já não há qualquer interesse no relacionamento. Freqüentemente o lar se transforma em campo de batalha, como dissemos, mas pelo menos há batalha. Diferentemente do que pensa a maior parte das pessoas, o contrário do amor não é o ódio: é a indiferença, o tédio no relacionamento.

Faixa 3 – Igualdade entre dificuldade e habilidade: zona do fluxo

É quando conseguimos um equilíbrio entre nossas dificuldades e nossa habilidade. Duas coisas mudam de nome:

  • A dificuldade passa a se chamar desafio, uma das cinco mais importantes causas de felicidade ou fatores motivacionais, em qualquer dos papéis que o ser humano represente na vida.
  • O estresse passa a se chamar eustresse. Em grego, eu significa Eustresse é o bom estresse, o saudável, aquele nível em que cumpre sua função original de preparar o corpo para lutar ou fugir.

Fica evidente então o que devemos fazer para mantermos o estresse em níveis saudáveis para a boa saúde física e mental.

  1. Se estivermos na faixa 1, a do distresse, precisamos:
  • Aumentar nossa habilidade. Por exemplo, num posto que exige mais competência do que temos, a postura ideal é aprender, aumentar a habilidade.
  • Em outros casos, diminuir a dificuldade a ser enfrentada. Para quem gasta energia e dinheiro só para manter uma imagem, começar a viver de acordo com padrões reais é a postura saudável que se recomenda.
  1. Se estivermos na faixa 2, a do tédio, a postura saudável é aumentar a dificuldade.

 

Paulo Gaudêncio – Psiquiatra

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